Saving lo divertissement

O jornal me convidou pruma pergunta pro Caetano. Mea culpa: corr(o)ido que estava e como o horário do envio não ficasse claríssimo,  cabei formulando de sopetão dez perguntas para que o repórter, se ainda houvesse tempo, escolhesse dentrelas. Creio que desrolou-se-ê – não tive notícias do desfecho. Assim, segue o decálogo perguntício. O que o Caetano responderia? O que você responderá? Okê okê Oxossi?

1.    Todo mundo é ou poderia ser artista?

2.    Que canção sua imagina mais cinematrográfica, portanto propensa para uma adaptação?

3.    Já te vi falando sobre tantos assuntos… Difícil imaginar uma pergunta novidadista… Assim, por exemplo, o que você acha de mim?

4.    Qual o sentido da vida?

5.    Tesão sem alcool é amor?

6.    É possível estar carente, mas estar legal?

7.    O que será “looping lips”?

8.    Por onde começar?

9.    Quer fazer o público sonhar?

10. Pra que serve uma entrevista no jornal?

?

Aqui, um dia, restará um texto sobre o fato seguinte: o ato-falho seguinte: no texto outro abaixo, por que não falei sobre o binômio-final-definitivo-máximo “Sorte e coragem”? Na verdade, o texto – se resistir – será sobre o binômio-incrível-espetacular-maravilhoso “Sorte e coragem” e não sobre o fato deu ter esquecido (?!) dele oh que tanto admiro-prezo-respeito-feromônio.

Ps: Ok: e o binômio-valise: “Intensidade”

Aporia

Calhou dinventar nalgum monumento da vida que duas palavrinhas resumiam o resumão. Quer dizer, creio que no aniversário da querideza é que desenganei a idéia. Ao invés de um “feliz aniversário” e “tudo de bom” ou “de lindo”, sentenciei meu binômio-guia. Um dos primeiros? “Doçura e força”.

Raro encontrar gente doce e forte. Quer dizer, a doçura tende mormente para certa lassidão, isto é, difícl ver gestos docemente agressivos, brigadeiros de aço, um barquinho de pedra assobiando no mar… Maus exemplos. Outro: quando alguém diz “eu te amo” com quase raiva. Melhor: um carinho sem sorrir. Ao passo que força resvala – ou é resvalada – muitas vezes por incerta brutalidade. Como se o forte aguentasse qualquer coisa – que de fato aguenta, mas aguentar não significa sair incólume.

Depois sobreveio-me “Pragmatismo e mistério”. Lendo agora, parece que pragmatismo é um variação da “força” e “mistério” uma tatuagem na coxa da doçura. É que pragmatismo pode destituir a “força” daquela preocupação da falta de medida. Pragmatismo me parece certa dosagem da força, o mínimo da Escala Richter. E mistério, bem, mistério não tenho a menor dúvida: …

Mais um ano se passo-ô-ou e nem sequer ouvir falar seu nome… Acreditei ter encontrado a Santa Resposta do Graal Binômico. Então depois do abraço e o presente, latia: “Seja leve e sexy”. Ainda agora acho infalível. Leveza pode reunir tudo: doçura, força, pragmatismo e mistério. E, então, voilá, rebola aí Kasparov: “sexy”.

Porque Rubem Braga avisou que tudo é encantador: o passarinho, o homem no mar, a moça na janela… Não existe nada ordinário no vasto mundo, senão, quiçá, os olhos de quem vê. Assim, nada custa ao passarinho cantar, o homem furar ondas e a moça existir… Dar um empurrãozinho no olhar. Desejar o desejo. “Sexy”.

Hoje estou simplificando a fórmula. Se conseguir rir e entender ou explicar, está de bom tamanho. Toda convicção pode ser defendida com um sorriso e alguma dúvida. Todo mundo quer cafuné. Todo mundo quer querer. Todo mundo tudo. Assim, feliz aniversário. “Bom-humor e inteligência” pra você.

Rascunho

Matéria frágil é o amor, amor. Por exemplo: uma bomba nuclear e ele já era. Por isso todo casal deveria antes, durante e depois de tudo ser amigo. Só a amizade e as baratas sobreviverão ao fim do mundo do amor.

Outra: encantamento é a coisa mais importante do mundo (petróleo nada, os carros são movidos a encantamento). É claro que acho a criatividade a coisa mais importante do mundo, mas vida deveria ser um pedaço de criatividade cercado de encantamento por todos os lados. Quero dizer, criatividade é a chama, conquanto encantamento é o fósforo, a caixinha, o sambista… e o paiol.

Michelangelo sabia das coisas, vide “A Criação do Homem”. Assim, todo teto é potencialmente uma Capela Sistina. Em suma, encantamento é algo frágil. Encantamento é um bichinho de pelúcia que fala, anda e sente e pensa. É uma pessoa de pelúcia. É a pessoa mais linda do mundo de pelúcia. A pessoa mais linda do mundo nua e de polainas de pelúcia. E te amando. Encantamento é tesão lírico – ou tesão e lirisimo. Mas é frágil como qualquer coisa que morre. Cuide do seu encantamento sob risco de virar cimento – ou rima vã. Aliteração – ou renavam. Enfim, figura de linguagem, retórica, balela, baleia… Pois a sombra do encantamento é pesada e esperneia. Esmaga sem maldade, mas esmaga, atropela, pisa. Tem gente que a gente vê no olhar a sombra do encantamento repisando.

Lembrei dos Paralamas: “Cuide bem do seu amor”. Ao contrário dos filmes e do desejo popular, se tiver de ser será, etc, o amor é o eterno pique até a porta do elevador fechando. Quer dizer, torça para que tenha alguém lá dentro, que te ouça gritar “segura, por favor!”, e, fundamentalmente, corra na direção dele(a).

Porque amor é vida na plenitude, assim, caminha para a morte, seu mar é o fim. Delicado jogo esse, sobre o arame sobre o abismo sobre o poema sobre a página sob os olhos. Em que aquilo é tudo na vida e ainda se tem a vida inteira – não no sentido de tempo, mas espaço. Por isso o casamento é meia pedra no caminho andado para o andor de barro da dor do fim do amor.

Há que se ter destreza para equilibrar tantos contorcionistas chineses, bigornas de cristal, tratores de papel, jumbos de mel… O amor é tão sinistro que te faz viver por contraste, oximoro velhaco – vide o texto.

O amor é o eixo da desmáquina. O amor é molhar a mão. O amor é qualquer coisa que qualquer um escreva, enfim. E esse é o perigo. E ainda bem. E ainda mal. E aí dá. Mas quem sou eu para falar de Roma?

Well, já já algas por acá (ok: não tão já já assim, mas, quase quase já já :)

Sempre lembro da frase do Auden, algo mais ou menos assim: “como saber o que penso até que veja o que disse?”. Lendo algumas matérias por ocasião da divulgação da série (Afinal…), doo a parafraseada: como saber o que penso até que leia o que não disse? Life is beautiful.

Papai-mamãe (esse era o nome do meu primeiro blog, natimorto, em resumo, pra lá de 2010 as infos)

Em quase breve site novo para lançamento do cd…

Enquanto isso,

infos de agenda estão sendo postadas no Twitter

(http://twitter.com/michelmelamed)

e Facebook, okokó?

Abraços,

m


OBS.: Meu twitter apesar de bissexto é @michelmelamed. O outro com underline (@michel_melamed) nem sósia do clone do meu xará é.

Íntegra da entrevista publicada hoje no O Globo (por ocasião da Semana extra do Regurgitofagia no SESC Ginástico dias 16, 17, 18 e 19 de julho de 2010 (Foto Gui Maia)):

1)      Conte o processo de criação da Trilogia.

Trata-se de uma Trilogia porque todos os espetáculos foram desenvolvidos sobre os seguintes conceitos: a pesquisa de linguagem quanto aos limites da participação do público no espetáculo, então a contracenação entre ator e “espectator”, autor e “espectautor”;  a integração de linguagens artísticas (teatro, performance, música, poesia falada, tecnologia, stand-up comedy, etc.); e a afirmação do teatro e da obra de arte como o espaço por excelência do livre-pensar, então sua função política… Mas cada espetáculo teve um processo bem diferente. Essa é a graça e o desespero, né? Porém, sendo um pouco mais rigoroso na resposta, vejo que os três começaram na página em branco, com os textos e idéias. Mas é na sala de ensaio que o encantamento acontece…

2)      Regurgitofagia já foi escrita tendo em vista uma continuação?

Não e mesmo Regurgitofagia surgiu primeiro como livro. Depois, através da Bolsa Rioarte é que o espetáculo começou a nascer (acho importante lembrar que esta Bolsa não existe mais assim como a Vitae, enfim, o que acaba empobrecendo a produção que fica confinada a um só modelo de realização, quando muito trabalhos precisam do tempo da pesquisa e não só o do patrocínio…). Depois de alguns meses em cartaz com o Regurgitofagia, sentei-me para checar os alfarrábios e percebi que tinha algumas idéias do que se convencionou chamar de monólogos e que justamente sobre isso é que elas se insurgiam: espetáculos apresentados com um só ator, mas em diálogo constante com o público. Ninguém chama voz e violão de monólogo. O tripé conceitual já estava visível ali. Daí selecionei duas das idéias, convidei as pessoas queridas e nasceu a trilogia.

3)      O que mudou na sua vida desde aquela estréia em 2004?

Tudo. Seja porque a mudança é uma justa semente da saúde, seja porque apesar de já trabalhar como artista há alguns anos, Regurgitofagia foi um trabalho que alcançou certa repercussão, as pessoas passaram a me conhecer e, principalmente, a consolidação de idéias e parcerias (Bianca de Felippes, Alessandra Colasanti, Adriana Ortiz, Luiza Marcier e Estúdio Radiográfico…).

4)      Os outros dois espetáculos, na sua opinião, ficaram a altura do primeiro?

Não sou funcionário, o compromisso é exclusivamente com a criação de um trabalho artístico. Na estréia de todos eles, o sentimento era de tocar o bumbo na praça e dizer venham todos. Eles são exatamente o que queriamos fazer. E apaixonadamente. Agora, é natural que as pessoas tenham as suas preferências, mas este é um segundo momento. Não fazemos o trabalho premeditando se o público vai gostar ou não, como se fosse um produto na prateleira do supermercado, o que não significa não querer que pessoas gostem, ao contrário, depois de pronto o sonho é encontrar eco, afeto, que as pessoas se identifiquem, se encantem também. E tem a questão da crítica, que apesar de certas atitudes não muito dignas, essa coisa de ficar batendo nas pessoas, mas, enfim, me interessa. Acredito na reflexão aprofundada, criativa, que multiplica e revela a obra.

5)      O aumento da porção musical é uma tendência definitiva no seu trabalho?

Tendência definitiva? Olha que eu volto pra primeira pergunta… Mas o próximo projeto é só musical sim. Estamos gravando um CD (produzido pelo Lucas Marcier) e faremos o show. Imagino o Homemúsica como uma ponte entre estes universos, a pesquisa era sobre isso mesmo, da palavra falada para a palavra cantada. Então me reencontrei com a música e os músicos. Lembro quando menino passar dias inteiros inventando músicas e como ficava feliz… É muito curioso no “Homemúsica” viver esta experiência das duas cenas, a teatral com tantos conflitos e a musical de congraçamento, festa. Mas não quer dizer que o conflito seja ruim, ao contrário, é a condição primeira mesmo. Então o teatro é uma necessidade. Quero fazer um novo trabalho com outros atores em cena.

6)      O que levou a reunir este trabalho nesta temporada?

É uma idéia que sempre esteve presente, na conclusão da Trilogia apresentar todos os espetáculos em sequência. Então surgiu o convite do SESC… Também me soa como uma conclusão e essa chance de poder se olhar através deles, que se alternam entre espelhos e quadros, daí se perceber tão diferente, pode se olhar nos olhos…

7)      Como você sente a reação do público? Imagino que devam existir fãs de longa estrada, aqueles que você inclusive já conhece e reconhece na platéia..

Essa é uma das coisas que mais me tocou nesta temporada da Trilogia. Apesar de ser fã de muitas pessoas e artistas, sempre tive certa desconfiança com esta idéia, até porque é muito comum que qualquer pessoa que apareça na Tv tenha alguém pedindo para tirar um foto. Mas dessa vez senti completamente diferente. O público dos espetáculos são pessoas realmente interessadas no trabalho, que conhecem, gostam e discutem. Conversei com muita gente sobre arte, o Brasil… Enfim, fiquei muito tocado com a delicadeza e a inteligência dessas pessoas. Foi uma grande surpresa a recepção que tivemos. Me sinto grato e orgulhoso.

8)      A participação dos espectadores é fundamental, não? Qual a que você guarda com mais carinho e qual realmente te incomodou?

Sim, a participação do espectador é fundamental. Mas agora que a Trilogia se concluiu, meu interesse mudou e vejo isto de outra forma. A participação ativa não é mais ou menos fundamental que qualquer outra. A questão é que a fruição pode se dar de várias maneiras e como no “Princípio de Heisenberg” é o observador que muda a obra, é o espectador com a sua formação, sua disponibilidade afetiva, intelectual, que constrói aquilo ali. No final, acho que é uma pororoca de criatividades.

9)      Como foi apresentar estes espetáculos no exterior?

Foram experiências maravilhosas, transformadoras, um grande aprendizado. Nova York particularmente foi uma cidade que acolheu os trabalhos de forma generosa e há quatro anos que fazemos coisas por lá. Mas não acredito, ao menos para este trabalho da Trilogia, alguma diferença prévia entre as cidades. Quer dizer, você pode fazer um espetáculo de puríssima magia ou incinerante frieza, seja em Nova York ou Nova Iguaçu. Como é teatro, ritual, a coisa toda da presentificação, tudo depende da alquimia das noites.

10)   Existe uma possível tetralogia no horizonte?

Uma quarta parte para este trabalho? Não… Quer dizer, de alguma forma já aconteceu. Apresentamos, ao invés do “Dinheiro Grátis” que era a segunda parte, o “Anti-Dinheiro Grátis”, mas vejo mais como uma coda, epílogo da Trilogia, do que quarta parte. Uma pedra no caminho. Mas tenho uma idéia para outra Trilogia… Quiçá então Tetralogia…