Arquivo do mês: janeiro 2013

por acaso

Me pediram essa entrevista no meio do ano passado. Nunca mais ouvi falar e hoje encontrei nos meus alfarrábios. Carnaval tá chegando, já quero ser outra pessoa e quase não acho mais nada disso. Assim, cá foi. 
Ps: Tinha uma parte sobre Bakhtin e carnavalização que não achei e nem sei. Tsc.
 
Por que o nome Adeus à Carne ou Go to Brazil?
Uma das suposições para a palavra “Carnaval” é que ela viria do latim “carne vale”, o que quer dizer “adeus à carne”, a festa da carne que precede a quaresma na tradição católica… Sendo que o carnaval teria nascido na grécia antiga… Então a escolha do nome deve-se ao ponto de partida do espetáculo, que é o encantamento pelo carnaval e, então, o desejo de usar alguns dos procedimentos dos desfiles das escolas de samba em um palco italiano. Experimentar mais entre as fronteiras destes teatros, porque carnaval é teatro… E meu achismo é que o tráfego entre o carnaval e a música popular, o carnaval e o cinema, por exemplo, é mais intenso do que com o teatro propriamente dito, o espaço físico e os códigos – excetuando casos pontuais e brilhantes como do Zé Celso e o Teatro Oficina e o Amir Haddad, por exemplo. Mas hoje, esta despedida da carne me faz pensar mais na quase ausência de texto do espetáculo, sendo as palavras de alguma maneira a “carne” dos espetáculos anteriores… “Go To Brazil” é um convite para enxergar o desafio diário dos brasileiros de extrair delicadeza da brutalidade, de ter boa-fé no mar de máfias, de fantasiar, enfim, quando não falta quarta de cinzas…
A revista Veja citou a peça Adeus à Carne como uma comédia dramática. Concorda com a definição/classificação?
Concordo que a peça tem como aspecto mais importante estimular a fantasia de quem assiste para que cada um desfile a sua própria fantasia e assim estimule a fantasia de outros… Então qualquer definição sobre o espetáculo me parece verdadeira. Estes dias pensei em “espelhotáculo”. Porque não é raro uma mesma cena ser descrita por pessoas diferentes como engraçada ou triste. Gosto da definição porque é o que buscamos mesmo, em vários sentidos, esta contradição, a oposição de forças, diferenças, conflitos, os oxímoros… Vale ainda lembrar que é uma conquista recente, porque nos trabalhos anteriores, também nestas fronteiras, insistiam para uma definição entre comédia e drama… A própria Vejinha pedia. Então por mais que as classificações sejam simplistas, neste caso, é uma boa síntese. Rir de tanto chorar, chorar de tanto rir…
A opção por não se utilizar da linguagem falada faz parte da sua crítica à sociedade? Se sim, como? Se não, o que o não dizer quer dizer?
A opção em parte é por falta de opção, quer dizer, a opção é um desejo, uma necessidade, uma paixão. A urgência de dizer pode se tranformar num grito e a impossibilidade do grito em um espamo. Então o “silêncio” se impôs ou melhor: a potência de cada acontecimento cênico, cada sinal, como diria Artaud, os corpos e expressões dos atores, a luz, a música, a cenografia, figurino, enfim, tudo tornou-se tão pródigo de interpretações que em algum momento a palavra propriamente dita parecia apenas sublinhar, quando não limitar os discursos. De outro modo, também há uma exaustão da palavra, esse cansaço do falatório geral e ininterrupto e eu já “regurgitofagizei” muito… Pois como você bem disse, tudo diz algo. Não dizer é dizer também, muitas vezes muito. Silêncio é música. E o que é dito é dependente da interpretação, generosidade, sensibilidade, criação, do bom humor e desespero de quem ouve, tanto ou mais do que de quem diz. E foi mesmo desesperador inventar que não haveria texto… Sendo que o desespero é alguma certeza de estar no caminho, porque a única resposta possível pra ele é a completa entrega, a paixão. E o bom humor e a poesia. Sempre que impossível.
Seu trabalho costuma carregar sempre um tom provocativo. O que você quer provocar?
A mudança do mundo. Porque acredito que provocando a criatividade, o olhar, a maneira única que cada um de nós tem de perceber, sentir, pensar, viver, o mundo será reinventado por todos incessantemente. Porque as coisas não são imutáveis, ao contrário, tudo afeta tudo e atravessa todos… Apesar de que “provocar” é estabelecer uma tensão para este convite…. Então pode ser provocar sim, mas pode ser também convidar, instigar, seduzir, estimular… A imaginação. O desejo é provocar desejos.
 
Para quem ainda não assistiu, o que se pode esperar da sua peça?
A si mesmo.
Anúncios