Arquivo do mês: janeiro 2011

Aporia

Calhou dinventar nalgum monumento da vida que duas palavrinhas resumiam o resumão. Quer dizer, creio que no aniversário da querideza é que desenganei a idéia. Ao invés de um “feliz aniversário” e “tudo de bom” ou “de lindo”, sentenciei meu binômio-guia. Um dos primeiros? “Doçura e força”.

Raro encontrar gente doce e forte. Quer dizer, a doçura tende mormente para certa lassidão, isto é, difícl ver gestos docemente agressivos, brigadeiros de aço, um barquinho de pedra assobiando no mar… Maus exemplos. Outro: quando alguém diz “eu te amo” com quase raiva. Melhor: um carinho sem sorrir. Ao passo que força resvala – ou é resvalada – muitas vezes por incerta brutalidade. Como se o forte aguentasse qualquer coisa – que de fato aguenta, mas aguentar não significa sair incólume.

Depois sobreveio-me “Pragmatismo e mistério”. Lendo agora, parece que pragmatismo é um variação da “força” e “mistério” uma tatuagem na coxa da doçura. É que pragmatismo pode destituir a “força” daquela preocupação da falta de medida. Pragmatismo me parece certa dosagem da força, o mínimo da Escala Richter. E mistério, bem, mistério não tenho a menor dúvida: …

Mais um ano se passo-ô-ou e nem sequer ouvir falar seu nome… Acreditei ter encontrado a Santa Resposta do Graal Binômico. Então depois do abraço e o presente, latia: “Seja leve e sexy”. Ainda agora acho infalível. Leveza pode reunir tudo: doçura, força, pragmatismo e mistério. E, então, voilá, rebola aí Kasparov: “sexy”.

Porque Rubem Braga avisou que tudo é encantador: o passarinho, o homem no mar, a moça na janela… Não existe nada ordinário no vasto mundo, senão, quiçá, os olhos de quem vê. Assim, nada custa ao passarinho cantar, o homem furar ondas e a moça existir… Dar um empurrãozinho no olhar. Desejar o desejo. “Sexy”.

Hoje estou simplificando a fórmula. Se conseguir rir e entender ou explicar, está de bom tamanho. Toda convicção pode ser defendida com um sorriso e alguma dúvida. Todo mundo quer cafuné. Todo mundo quer querer. Todo mundo tudo. Assim, feliz aniversário. “Bom-humor e inteligência” pra você.

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Rascunho

Matéria frágil é o amor, amor. Por exemplo: uma bomba nuclear e ele já era. Por isso todo casal deveria antes, durante e depois de tudo ser amigo. Só a amizade e as baratas sobreviverão ao fim do mundo do amor.

Outra: encantamento é a coisa mais importante do mundo (petróleo nada, os carros são movidos a encantamento). É claro que acho a criatividade a coisa mais importante do mundo, mas vida deveria ser um pedaço de criatividade cercado de encantamento por todos os lados. Quero dizer, criatividade é a chama, conquanto encantamento é o fósforo, a caixinha, o sambista… e o paiol.

Michelangelo sabia das coisas, vide “A Criação do Homem”. Assim, todo teto é potencialmente uma Capela Sistina. Em suma, encantamento é algo frágil. Encantamento é um bichinho de pelúcia que fala, anda e sente e pensa. É uma pessoa de pelúcia. É a pessoa mais linda do mundo de pelúcia. A pessoa mais linda do mundo nua e de polainas de pelúcia. E te amando. Encantamento é tesão lírico – ou tesão e lirisimo. Mas é frágil como qualquer coisa que morre. Cuide do seu encantamento sob risco de virar cimento – ou rima vã. Aliteração – ou renavam. Enfim, figura de linguagem, retórica, balela, baleia… Pois a sombra do encantamento é pesada e esperneia. Esmaga sem maldade, mas esmaga, atropela, pisa. Tem gente que a gente vê no olhar a sombra do encantamento repisando.

Lembrei dos Paralamas: “Cuide bem do seu amor”. Ao contrário dos filmes e do desejo popular, se tiver de ser será, etc, o amor é o eterno pique até a porta do elevador fechando. Quer dizer, torça para que tenha alguém lá dentro, que te ouça gritar “segura, por favor!”, e, fundamentalmente, corra na direção dele(a).

Porque amor é vida na plenitude, assim, caminha para a morte, seu mar é o fim. Delicado jogo esse, sobre o arame sobre o abismo sobre o poema sobre a página sob os olhos. Em que aquilo é tudo na vida e ainda se tem a vida inteira – não no sentido de tempo, mas espaço. Por isso o casamento é meia pedra no caminho andado para o andor de barro da dor do fim do amor.

Há que se ter destreza para equilibrar tantos contorcionistas chineses, bigornas de cristal, tratores de papel, jumbos de mel… O amor é tão sinistro que te faz viver por contraste, oximoro velhaco – vide o texto.

O amor é o eixo da desmáquina. O amor é molhar a mão. O amor é qualquer coisa que qualquer um escreva, enfim. E esse é o perigo. E ainda bem. E ainda mal. E aí dá. Mas quem sou eu para falar de Roma?